Perdão – A Ponte e o Peso (Efésios 4:32)

Enquanto a justiça ergue muros, o perdão constrói pontes — frágeis, mas necessárias. Paulo nos diz que:

“Sejam bondosos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, como Deus os perdoou” (Efésios 4:32).

Como algo tão contra a nossa natureza pode ser tão essencial?

A resposta está no paradoxo divino: o perdão não é um ato de fraqueza, mas uma “demolição controlada” que permite edificar novos alicerces.

A Ponte Quebrada

O Exemplo de José: Perdão como Projeto Divino

Assim como uma ponte desconecta margens, o perdão religa o que o orgulho separou. José, vendido como escravo pelos próprios irmãos, entendeu isso décadas antes do reencontro.

Quando eles se prostraram diante dele no Egito, temendo vingança, José respondeu:

“Vocês planejaram o mal contra mim, mas Deus o tornou em bem” (Gênesis 50:20).

Perdoar, aqui, não foi esquecer a traição, mas reconhecer que até o mal humano pode ser um instrumento no projeto mair de Deus.

A ponte do perdão exige dois pilares:

  1. Arrependimento (Reconhecer a Dívida);
  2. Misericórdia (Cancelá-la Sem Cobrança).

Cristo mostrou isso na cruz:

“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).

Note que Ele não condicionou o perdão ao arrependimento dos algozes — a misericórdia veio primeiro.

Esse é o exemplo que devemos seguir: perdoar antes da reparação, assim como Deus fez conosco.

A Engenharia do Perdão: Como Reconstruir?

Na prática, reconstruir pontes requer:

  • Humildade para Reconhecer Falhas: Davi, após o pecado com Bate-Seba, orou: “Cria em mim um coração puro” (Salmo 51:10);
  • Coragem para Iniciar o Diálogo: Jesus ensinou: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o a sós” (Mateus 18:15). A intimidade precede a reconciliação;
  • Paciência para Esperar Cicatrização: Assim como uma ferida física, a emocional demanda tempo. A Bíblia não exige “perdoar e confiar cegamente”, mas “perdoar e discernir” (Provérbios 4:23).

O Peso Liberto

A Parábola do Credor Impiedoso: Quando o Perdão Falha

Jesus contou a história de um servo perdoado de uma dívida impagável (10 mil talentos, equivalente a bilhões em moeda atual), que, em vez de aliviar outros, agarrou um colega pela garganta por uma dívida ínfima (100 denários) (Mateus 18:23-35).

Qual é a lição que aprendemos?

Quem não perdoa carrega um peso “invisível” — e pensa estar livre. O peso da mágoa se manifesta em:

  • Amargura: Raízes que contaminam relacionamentos (Hebreus 12:15);
  • Isolamento: Muros que impedem comunhão autêntica;
  • Autojustiça: A ilusão de que somos melhores que o ofensor.

Paulo reforça:

“Assim como Deus os perdoou em Cristo” (Efésios 4:32).

O advérbio “como” é chave: não perdoamos se o outro mudar, mas porque fomos perdoados primeiro.

É um ciclo de graça: recebemos o alívio do peso e o repassamos, mesmo que a outra mão esteja fechada.

Perdão Vertical vs. Horizontal

Deus Como Modelo: O Perdão que Restaura

A base do perdão humano está no divino:

“Se confessarmos nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar” (1 João 1:9).

Deus não minimiza nosso erro (justiça), mas oferece redenção (misericórdia). Esse equilíbrio é vital:

  • Justiça sem misericórdia é crueldade.
  • Misericórdia sem justiça é indiferença.

Na cruz, ambos se encontraram: Cristo pagou a dívida (Justiça) para nos libertar (Misericórdia).

Perdão Horizontal: Desafios Práticos

  • Quando o Ofensor Não se Arrepende: Jesus ensinou a “amar os inimigos” (Mateus 5:44), o que inclui perdoar internamente, mesmo sem reconciliação externa.
  • Quando a Ferida é Recorrente: Pedro perguntou: “Até quantas vezes devo perdoar?”. Jesus respondeu: “70 vezes 7” (Mateus 18:22) — isto é, sempre.
  • Quando o Perdão Parece Impossível: A solução está em Romanos 12:19: “Não se vinguem; deixem isso para a ira de Deus”. Transferir a cobrança para Deus alivia nosso fardo.

Conclusão

Perdão Como Testemunho Vivo

Que mistério!

O perdão não apaga o passado — ressignifica-o. Não somos heróis por perdoar; somos mendigos que encontraram pão e o compartilham.

Um Convite à Liberdade

Resta viver como quem carrega não cicatrizes, mas lembranças transformadas em testemunho. Afinal, a ponte mais estreita ainda é melhor que o abismo.

E no fim, como lembra Paula em sua carta aos, somos apenas imitadores:

“Sejam bondosos uns com os outros, perdoando-se mutuamente, como Deus os perdoou”. (Efésios 4:32)

Como?

  • Lembre-se da dívida que Deus cancelou em você.
  • Decida perdoar, mesmo que a emoção demore a acompanhar.
  • Ore por quem o feriu — não para mudá-lo, mas para libertar-se.

A ponte está construída. Resta atravessá-la!

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